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“As
obras, ou seja, o produto da atividade construtiva do homem representa
assim o testemunho de sua fé racional em si mesmo, no seu próximo,
na humildade, no futuro e em Deus”.
(Allan Kardec).
Eurípides Barsanulfo conhecido carinhosamente como “O Apóstolo
da Caridade”, nasceu na cidade de Sacramento estado de Minas Gerais,
a 1º de maio de 1880, e aí faleceu a 1º de novembro de
1918, com 38 anos de idade. Foram seus pais Hermógenes Ernesto
de Araújo e Jerônima Pereira de Almeida, a principio pobríssimo
de haveres materiais, mais riquíssimos de virtudes cristãs,
as quais enchiam o lar honrado de alegria e paz. Nos fins do século
que se passou a pequenina cidade de Sacramento, mal despontava para o
progresso. A estação da estrada de ferro Mogiana (mais conhecida
como estação do Cipó), distava quatorze quilômetros
do centro. Para Uberaba e Franca se fazia necessário uma viagem
a cavalo que durava horas a fio. O comércio era precário
e as mercadorias, era transportada a cidadezinha de Sacramento em carros
atrelados a boi, esse percurso durava uma imensidão, cabendo ao
comerciante uma despesa alta cujo valor na época chegava a cifra
de dez réis por quilos. Como todas as pequenas cidades faltavam-lhe
infra-estrutura e a presença de um médico José Onofre
Muniz Ribeiro coroava com o bom atendimento do profissional de saúde
que visava mais a caridade, do que fazer fortuna com a profissão.
A combinação perfeita médico e farmácia (Manoel
Gordo o proprietário) de um para uma. Com o falecimento de Manoel
seu filho Clemente assumiu as rédeas da direção da
fornecedora de medicamentos da cidade. Duas parteiras se revezavam na
arte de fazer nascer ou ajudar no nascimento das novas crianças
que iriam somar-se as demais do pequeno lugarejo. Um acidente fatal foi
à causa do fechamento da farmácia, o senhor Clemente queimou-se
com álcool e desencarnou.
A vida em Sacramento era pacata como eram as pequenas cidades interioranas.
Foi neste ambiente de tranqüilidade e pobreza que nasceu e viveu
Eurípides Barsanulfo, coincidentemente com o dia do trabalho. Logo
que Pôde manifestar os nobres sentimentos de que era dotado, revelou-se
um menino admirável pela sua inteligência precoce, pela sua
dedicação ao trabalho e ao estudo. Sua juventude não
foi excepcional apesar de seus dotes, muito jovem ainda, teve de enfrentar
as vicissitudes do lar, promovendo os meios de auxiliá-lo. Cresceu
e viveu sempre ao lado de seus progenitores, para os quais foi um verdadeiro
arrimo. No Colégio Miranda onde estudou, auxiliava os professores,
lecionando os seus condiscípulos, e tal era a sua inteligência
ou queda para os estudos e o magistério que se tornou o professor
de seus próprios irmãos. João Derwil Miranda era
o dono do colégio e gostava muito de seu discente Barsanulfo. Era
dedicado aos livros e a leitura, os mestres não escondiam a admiração
que tinham por seu talento e pelo caráter reto do jovem estudante.
De tudo queria saber e foi através dessa curiosidade que em poucos
anos conseguiu uma sólida e primorosa cultura. Trabalhou como guarda-livros
no escritório de seu pai. Em janeiro de 1902, com seus professores,
Dr. João Gomes Vieira de Melo, Inácio Martins de Melo, e
com seu colega José Martins Borges, secundado por outros elementos,
fundou o Liceu Sacramento, instituto de ensino primário e secundário,
onde exerceu a cátedra, por cinco anos seguidos, com raro brilhantismo,
lecionando quando se fazia necessário, todas as matérias
do curso. Redigiu sempre aos domingos a “Gazeta de Sacramento”,
hebdomadário por dois anos.
Fez sua estréia como jornalista, escrevendo artigos sobre economia
política, direito público, métodos educacionais,
literatura e filosofia. Foi colaborador de outros jornais. Além
desses atributos era autodidata em medicina e direito. Gostava de astronomia,
filosofia, matemática, ciências físicas e naturais,
literatura, com a mais extraordinária segurança e sem possuir
nenhum diploma de curso superior. Voltando ainda a adolescência,
Eurípides viveu-a, assim, dentro de um clima sadio, jamais participou
de ruidosa boemia dos jovens. Nunca fumou e jamais experimentou bebidas
alcoólicas. A par da aguda inteligência, tendo sob sua responsabilidade
a formação cultural de seus irmãos, era Barsanulfo
também dotado de uma bondade comovedora; bondade banhada de religiosidade.
Extravasava seu sentimento religioso na igreja, onde ajudava aos domingos
o padre Paixão na parte Litúrgica e entre as famílias
paupérrimas de Sacramento distribuído palavras de fé
e consolo; e a maior parte do salário que percebia de seu pai.
Espírito evoluído afeiçoava-se a todos; inclusive,
aos animais e pássaros. Seu coração era uma fonte
de bondade, e nesta frase não entra o menor resquício de
exagero! Para que se tenha uma idéia de sua sensibilidade afetiva,
narremos um fato como ilustração.
O jovem Eurípides possuía no quintal um belo pássaro:
um mutum, muito manso e que vivia solto. Um dia, ele voou para o quintal
do coronel José Afonso de Almeida, que o matou com um tiro no peito
e o comeu. Mais tarde, sabendo que o pássaro era de propriedade
de Eurípides Barsanulfo, o coronel procura-o, a fim de desculpar-se.
Eurípides recebeu a noticia com água nos olhos. (Sempre
afirmava casar não posso, pois já estou casado com a pobreza,
Foi co-fundador da Irmandade de São Vicente de Paulo; instituição
católica com objetivo de ajuda aos pobres). A sua juventude foi
luminosa e bondosa. Converteu-se ao Espiritismo, mas antes alguns parentes
seus já realizavam sessões mediúnicas em Santa Maria,
lugarejo que distava quatorze quilômetros do centro de Sacramento,
uma região montanhosa com terra vermelha e algumas casas rústicas.
As sessões eram realizadas na casa de seu tio Honorato Ferreira
da Cunha situada na fazenda Santa Maria, de propriedade do capitão
Joaquim Gonçalves de são Roque e sua esposa Ana Petronilha
de Araújo; tios de “seu” Mogico e, pois, tios-avós
de Eurípides. Espírito livre, talhado para os grandes surtos
da espiritualidade, era fatal o abandono futuro da religião que
recebera no berço.
E, assim certo dia, tendo conhecimento de espantosas curas realizadas
no campo do Espiritismo, resolveu saber o que de verdade havia nesses
relatos. Como seus parentes já estavam na doutrina, rumou para
ali, no propósito de investigar os fatos. A tipologia foi o fenômeno
que mais observou, comunicações de altas expressões
filosóficas, curas maravilhosas, estudaram-as cuidadosamente como
fez Allan Kardec, e, de volta, à sua terra natal, trouxe consigo
as obras Kardequianas, que o levaram, afinal em 1905, a converter-se ao
Espiritismo. Tornou-se o maior propagandista naquela região do
estado de Minas Gerais. Durante 12 anos e sete meses foi presidente do
Grupo Espírita Esperança e Caridade por ele fundado. Dependendo
deste Grupo, surgiu em dois de abril de 1907 o magnífico e grande
Colégio Allan Kardec, cuja matrícula chegou a 200alunos.
Existem muitos enobrecedores desta grande figura do Espiritismo no Brasil,
narrar todos os fatos precisaríamos construir uma grande enciclopédia.
Em abril de 1917, chegou a Sacramento, de Igarapava, o coronel Azarias
Arantes, acometido de grave enfermidade, a qual foi radicalmente curada
pelo Espírito Bezerra de Menezes, servindo de médium Barsanulfo.
A retumbância dessa cura levou algumas pessoas interessadas no combate
ao Espiritismo, a moverem contra o médium um indecoroso processo
penal por exercício ilegal da medicina. Acabou sendo arquivado
e prescrito, por que o juiz queria pronunciar o caridoso Barsanulfo. Foi
grande o delírio e entusiasmo que o povo de Sacramento realizou
a nove de maio de 1918. Trabalhador esforçado foi um dos maiores
espíritas do estado de Minas Gerais. No dia 1º de novembro
de 1918, falecia em sua cidade natal, vítima de pandemia de gripe.
O povo, em peso, chorando, acompanhou os despojos mortais ao cemitério.
“Cognominado O “Apóstolo do Triangulo Mineiro”
sobre ele assim se externou a “Lavoura e Comércio de Uberaba:”
Foi o apóstolo do Bem: ao seu lado nenhuma lágrima ficou
sem consolo e, sem bálsamo, dor nenhuma”. “O Borá”,
folha que se publicava em Sacramento, deu, em seu número de 17
de novembro de 1918, excelente notícia sobre a personalidade do
respeitado e benemérito sacramentano. Em 1929, 1º de maio,
os espíritas de Sacramento faziam inaugurar, no jardim do colégio
“Allan Kardec”, uma herma em memória do grande benfeitor
Eurípides Barsanulfo, tendo o juiz de Direito da Comarca de Sacramento,
Dr. Francisco Cândido da Gama Júnior, proferido, na ocasião,
como orador oficial da festa, um belo e emocionante discurso.
enviado por ANTONIO PAIVA RODRIGUES-MEMBRO DA ACI ALOMERCE E AOUVIRCE
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