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“Na hora do adeus”
De: Luiz Sérgio. Psicografia:
Irene Pacheco Machado
Capítulo 1
Meu novo amigo, um jardineiro de
Jesus.
No departamento do Trabalho o movimento
era intenso, um vaivém constante. Olhando aquele prédio
majestoso, sorri, pensando na cara do materialista que, ao desencarnar,
constata que os espíritas não são tão doidos
quanto ele imaginava. Que surpresa, ao perceber que sua roupa de griffe
está desintegrando-se junto ao corpo físico, que ambos pertencem
a terra! E depois, aqui não existe “pistolão”
nem se fura fila. Chegamos e percorremos todos os departamentos a que
temos direito.
Soraia, uma amiga espiritual, aproximando-se de mim, falou:
- Olá, Luiz, você aqui? Posso saber o porquê?
- Claro, minha linda, estou a procura de trabalho.
- Não me diga que foi despedido... Pensei que houvesse estabilidade
na Universidade Maria de Nazaré! Exclamou e sorriu.
- Desculpe Soraia, estava brincando. Encontro-me em trabalho; estou iniciando
um estudo sobre a hora do adeus; como devem proceder aqueles que ficam
no plano físico.
- Interessante este assunto. Sempre achei também que os encarnados
precisassem saber como agir neste momento tão cheio de tristeza.
- E você irmã, por que gosta de trabalhar aqui?
- Pertenço ao grupo de trabalho Hortênsias Lilases, mas sempre
que posso aqui venho ajudar. Este é um dos locais que mais movimento
tem. Mas no que pode este departamento lhe ser útil?
- É verdade, talvez até nada encontre aqui, mas é
de muito proveito para o meu crescimento espiritual constatar que na hora
de procurar trabalho não fiquei chorando ao lado dos meus entes
queridos. Lembro-me, ainda, Soraia, de que quando aqui cheguei. Estava
assustado, sem saber o que me esperava.
- è isso mesmo, Sérgio, comigo também foi assim.
Desencarnei com vinte e um anos, em acidente de automóvel. No momento
em que meu corpo físico foi expulso minha alma, a minha consciência
resplandeceu de luz espiritual, tornei-me um espírito liberto e
parti, sem olhar para trás. Para que olhar um carro retorcido junto
a uma árvore, um corpo antes belo e bem tratado em estado quase
semelhante àquele amontoado de ferro velho?
- Como você se libertou tão facilmente, sendo ainda jovem?
- Eu era filha única, de pais ricos, mas desde pequena sempre busquei
Jesus e Ele era o meu maior amigo. Na faculdade, chamavam-me de beata,
de fanática, mas eu sempre tentava ajudar os outros. O meu próximo
é Jesus junto a mim. Por isso, Luiz Sérgio, minha consciência
não era uma cadeia de culpas e de remorsos.
- Eu sempre a admirei pelo carinho com que trata os estropiados que aqui
chegam, mas nunca imaginei que você, quando encarnada, já
fosse uma semente de luz.
- Não brinque Luiz! De luz, eu?
- Claro, irmã, poucas pessoas tem um despertar tão lindo.
As amarras da carne são como filetes cortantes, que doem e deixam
marcas. Depois Soraia, hoje em dia é muito difícil uma moça
bonita como você viver espiritualmente ainda no corpo físico.
- Desencarnei há trinta anos, Luiz. Naquele tempo as meninas brincavam
de bonecas e os pais não eram escravos do modernismo. Hoje é
que alguns jovens estão cada vez mais presos à matéria.
Não querem pensar, para não ter de buscar as verdades espirituais,
que julgam aprisiona-los, roubando-lhes os gozos da carne. Estou-lhe contando
a minha vida, mas não é isso o que você deseja relatar
neste livro.
- Soraia, sua presença nas páginas de um livro é
um perfume que todos desejam, nem que seja um pouquinho.
Ela sorriu e logo alguém a chamou.
- Até logo mais, Luiz e no que desejar, o departamento estará
às suas ordens.
- Obrigado.
Ela se foi e eu saí brincando com as pedras do meu caminho. Ainda
olhei para aquele belo prédio, onde o pobre, o rico, o milionário,
todos procuram trabalho. Ali se dá a igualdade dos seres. A paisagem,
repleta de flores, alegrava os pássaros. Lembrei-me de Francisco
de Assis e os cumprimentei:
- Bom dia, irmãos pássaros, que Deus os proteja! Eu amo
vocês, muito!
- Falando sozinho? Sabia que era maluco, mas não tanto.
Procurei quem falara e não encontrei. Alguém se fizera invisível
para mim. Continuei procurando, quando alguém me jogou para o alto.
(Consultar o item 257 de O livro dos espíritos, no parágrafo
referente à vista dos espíritos).
- Só podia ser você mesmo! Quando é que você
vai criar juízo, Rayto?
- Quando nem existir nem mais um Luiz Sérgio na face da terra,
respondeu, rindo gostosamente.
- Engraçadinho...
- Tenho participado de muitos trabalhos de socorro. E você, o que
tem feito? Não está mais preocupado com o tóxico?
- Luiz, não sei o que vai acontecer mais. Se o governo brasileiro
não tomar urgentes resoluções, o Brasil será
o campeão mundial do tóxico. Se já não o é.
- E a espiritualidade, Rayto, o que está fazendo a respeito?
- Tomando medidas drásticas, mas ficamos penalizados em saber que
o país escolhido para a pátria do evangelho deseja liberar
a droga. Em uma terra de famintos, a preocupação maior deveria
ser com a educação, a saúde e a justiça social.
Mas quero saber do seu novo livro.
- Sabe Rayto, muitos me perguntam: Luiz Sérgio, o que faço
para esquecer do meu marido que desencarnou? Dou a roupa dele? Choro ou
não choro? Vou ou não vou ao cemitério? Arrumo o
túmulo ou não? Corro atrás de mensagem ou o deixo
viver em paz? São tantas as perguntas, que resolvi escrever um
livro, não com o intuito de ensinar, mas de ajudar os meus amigos,
aqueles que não sabem o que fazer na hora do adeus.
- No meu entender, o fato mais desagradável é o encontro
social no cemitério. Ao desencarnar o João ou o José,
pessoas que há anos não se encontravam ficam a conversar,
rindo ou relembrando os momentos finais do desencarnado.
- É sobre isso, Rayto, que desejo escrever. Vim até aqui,
primeiro para recordar meus primeiros passos no mundo espiritual e também
para falar com o Palário, com você e com outros que sempre
me ajudaram.
- Por mim, pode escrever um, dois ou mil livros. Estarei ao seu lado eternamente,
orando pelo seu crescimento espiritual.
- Obrigado, Rayto, não é só consentimento, vou precisar
de ajuda, estarei rodando as capelas e os cemitérios.
Rindo, gracejou:
- Você nunca me enganou, tem cara de vampiro mesmo!
- Não brinque Rayto, você sabe que não vai ser fácil,
e depois, quero que o livro seja útil a todos.
- Luiz, na sala mil e novecentos você encontrará alguém
que o ajudará. E o Rayto aqui, basta você estalar os dedos
que, como servo do Cristo, o atenderei de imediato, e que Deus, o criador
da vida, seja eterno em seu trabalho. Um abraço.
Depois saiu, rapidamente, saltitante. Olhei-o até desaparecer nas
alamedas floridas daquela praça.
Em seguida, procurei a sala indicada pelo Rayto. Recebido por Constância,
fui logo levado até Luppe, que me cumprimentou sorrindo:
- Seja bem vindo, Luiz Sérgio, fico contente em saber que o irmão
deseja ajudar os encarnados, quando eles passam por horas amargas. Mas
lhe pergunto: será que o seu livro terá condição
de mudar um comportamento de longos anos? O brasileiro há muito
transforma a hora do adeus em momentos de desespero ou de bate-papos,
rindo alto, não se importando com o corpo que ali jaz exposto para
o último adeus.
- Por isso, irmãs Luppe, esperam que o meu livro sirva para auxiliar
o desencarnado, que às vezes se debate junto ao corpo físico,
pedindo socorro, e ninguém faz uma prece para ajudá-lo,
simplesmente por julgar que ali já não se encontra.
- Mas poucos serão aqueles que o lerão.
- Não me importo. Se ele conseguir ajudar uma só família
ou um só irmão que volta para a verdadeira pátria,
já me sentirei muito feliz.
Ela me deu “aquele” sorriso e depois falou:
- Você, irmão terá a nossa permissão para mais
esse trabalho, mas gostaria que alguém bastante experiente o acompanhasse.
Ele executa há anos essa tarefa, e somente agora participará
de um livro.
Nisso, um espírito com aparência idosa apareceu na sala.
- Que a paz esteja entre nós. Bom dia.
- Luiz, este é Enrico, que irá acompanhá-lo. É
um devotado trabalhador do Senhor.
- Como vai, Luiz Sérgio?
Õ, amigo, como eu me sinto feliz em tê-lo ao meu lado! Que
vontade de gritar seu nome para todo o Universo, tão alegre me
encontro!
- O grito, quando chega à garganta, já se fez ouvido pelo
coração. Sinto-me feliz por mais uma tarefa – falou,
timidamente.
Enrico é um senhor dos seus setenta e cinco anos, e trabalhou na
Crosta durante vinte anos como jardineiro. Seu olhar é cândido
e amigo.
Desejo aos três a paz do Senhor, e que tudo se transforme para a
glória de Deus.
Três? Olhei, procurando o terceiro.
Enrico sorriu:
- O irmão não irá vê-lo. Ele estará
ao nosso lado, mas nós não teremos condição
nem de divisá-lo.
Fiquei intrigado, mas nada perguntei. Luppe ainda acrescentou:
- Trate do seu trabalho, Enrico, como bom jardineiro que é, e quando
a terra desejar aprisionar a semente, faça com que ela busque a
luz do Alto, só assim se libertará. O que é da terra
à terra pertence. O que é luz resplandece no Universo. Que
Deus os guie.
- A quem agradeço, irmã Luppe? À Irmã, ao
Rayto, a quem?
A Deus, que confia em você.
Despedimo-nos e dali saímos. Tinha vontade de abraçar e
beijar Enrico, tal a sua meiguice; mas parecia um “anjo” do
Senhor.
- Luiz, quero que saiba que tenho uma aparência idosa, mas meu coração
é de um bebê, que a cada dia espera crescer espiritualmente.
Busco no meu próximo o meu Deus e faço do meu dia uma conquista
para o meu espírito.
Enlacei seu ombro e percorremos aqueles jardins lindíssimos, onde
os pássaros cantam, transmitindo-nos muita paz.
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