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O Psicógrafo
Encerrada a conversação,
referente aos problemas de intercâmbio com os habitantes da esfera
carnal, o Instrutor Alexandre, que desempenha elevadas funções
em nosso plano, dirigiu-me a palavra, gentilmente:
- Compreendo seu desejo. Se quiser, poderá acompanhar-me ao nosso
núcleo, em momento oportuno.
- Sim - respondi, encantado -, a questão mediúnica é
fascinante.
O interlocutor sorriu benevolentemente e concordou:
- De fato, para quem lhe examine os ascendentes morais.
Marcou-se, mais tarde, à noite de minha visita e esperei os ensinamentos
práticos, alimentando indisfarçável interesse.
Surgida à oportunidade, vali-me da prestigiosa influência
para ingressar no espaçoso e velho salão, onde Alexandre
desempenha atribuições na chefia.
Dentre as dezenas de cadeiras, dispostas em filas, somente dezoito permaneciam
ocupadas por pessoas terrestres, autênticas. As demais atendiam
à massa invisível aos olhos comuns do plano físico.
Grande assembléia de almas sofredoras. Público extenso e
necessitado.
Reparei que fios luminosos dividiam os assistentes da região espiritual
em turmas diferentes. Cada grupo exibia características próprias.
Em torno das zonas de acesso, postavam-se corpos de guarda, e compreendi,
pelo vozerio do exterior, que, também ali, a entrada dos desencarnados
obedecia a controle significativo. As entidades necessitadas, admitidas
ao interior, mantinham discrição e silêncio.
Entrei cauteloso, sem despertar atenção na assembléia
que ouvia, emocionadamente, a palavra generosa e edificante de operoso
instrutor da casa.
Grandes números de cooperadores velavam, atentos. E, enquanto o
devotado mentor falava com o coração nas palavras, os dezoito
companheiros encarnados demoravam-se em rigorosa concentração
do pensamento, elevado a objetivos altos e puros. Era belo sentir-lhes
a vibração particular. Cada qual emitia raios luminosos,
muito diferentes entre si, na intensidade e na cor. Esses raios confundiam-se
à distância aproximada de sessenta centímetros dos
corpos físicos e estabeleciam uma corrente de força, bastante
diversa das energias de nossa esfera. Essa corrente não se limitava
ao círculo movimentado. Em certo ponto, despejava elementos vitais,
à maneira de fonte miraculosa, com origem nos corações
e nos cérebros humanos que aí se reuniam. As energias dos
encarnados casavam-se aos fluidos vigorosos dos trabalhadores de nosso
plano de ação, congregados em vasto número, formando
precioso armazém de benefícios para os infelizes, extremamente
apegados ainda às sensações fisiológicas.
Semelhantes forças mentais não são ilusórias,
como pode parecer ao raciocínio terrestre, menos esclarecido quanto
às reservas infinitas de possibilidades além da matéria
mais grosseira.
Detinha-me na observação dos valores novos de meu aprendizado,
quando o meu amigo, terminada a dissertação consoladora,
me solicitou a presença nos serviços mediúnicos.
Demonstrando-se interessado no aproveitamento integral do tempo, foi muito
comedido nas saudações.
- Não podemos perder os minutos - informou.
E, designando reduzido grupo de seis entidades próximas, esclareceu:
- Esperam, ali, os amigos autorizados.
- À comunicação? - indaguei.
O instrutor fez um sinal afirmativo e acrescentou:
- Nem todos, porém, conseguem o intuito à mesma hora. Alguns
são obrigados a esperar se¬manas, meses, anos...
- Não supunha tão difícil a tarefa - aduzi, espantado.
- Verá - falou Alexandre, gentil.
E dirigindo-se para um rapaz que se mantinha em profunda concentração,
cercado de auxiliares de nosso plano, explicou, atencioso:
- Temos seis comunicantes prováveis, mas, na presente reunião,
apenas compareceu um médium em condições de atender.
Desde já, portanto, somos obrigados a considerar que o grupo de
aprendizes e obreiros terrestres somente receberá o que se relacione
com o interesse coletivo. Não há possibilidade para qualquer
serviço extraordinário.
- Julguei que o médium fosse a máquina, acima de tudo -
ponderei.
- A máquina também gasta - observou o instrutor- e estamos
diante de maquinismo demasiadamente delicado.
Fixando-me a expressão espantadiça, Alexandre continuou:
- Preliminarmente, devemos reconhecer que, nos serviços mediúnicos,
preponderam os fatores morais. Neste momento, o médium, para ser
fiel ao mandato superior, necessita clareza e serenidade, como o espelho
cristalino dum lago. De outro modo, as ondas de inquietude perturbariam
a projeção de nossa espiritualidade sobre a materialidade
terrena, como as águas revoltas não refletem as imagens
sublimes do céu e da Natureza ambiente.
Indicando o médium, prosseguiu o orientador, com voz firme:
- Este irmão não é um simples aparelho. É
um Espírito que deve ser tão livre quanto o nosso e que,
a fim de se prestar ao intercâmbio desejado, precisa renunciar a
si mesmo, com abnegação e humildade, primeiros fatores na
obtenção de acesso à permuta com as regiões
mais elevadas. Necessita calar, para que outros falem; dar de si próprio,
para que outros recebam. Em suma, deve servir de ponte, onde se encontrem
interesses diferentes. Sem essa compreensão consciente do espírito
de serviço, não poderia atender aos propósitos edificantes.
Naturalmente, ele é responsável pela manutenção
dos recursos interiores, tais como a tolerância, a humildade, a
disposição fraterna, a paciência e o amor cristão;
todavia, precisamos cooperar no sentido de manter-lhe os estímulos
de natureza exterior, porque se o companheiro não tem pão,
nem paz relativa, se lhe falta assistência nas aquisições
mais simples, não poderemos exigir-lhe a colaboração,
redundante em sacrifício. Nos¬sas responsabilidades, portanto,
estão conjugadas nos mínimos detalhes da tarefa a cumprir.
Raiando-me a idéia de que o médium deveria esperar, satisfeito,
a compensação divina, Alexandre ponderou:
- Consideremos, contudo, meu amigo, que ainda nos encontramos em trabalho
incompleto. A questão de salário virá depois o...
Nesse ponto da conversação, convidou-me à aproximação
do aparelho mediúnico e, colocando¬-lhe a destra sobre a fronte,
exclamou:
- Observe. Estamos diante do psicógrafo comum. Antes do trabalho
a que se submete, neste momento, nossos auxiliares já lhe prepararam
as possibilidades para que não se lhe perturbe a saúde física.
A transmissão da mensagem não será simplesmente «tomar
a mão». Há processos intrincados, complexos.
E, ante minha profunda curiosidade científica, o orientador ofereceu-me
o auxílio magnético de sua personalidade vigorosa e passei
a observar, no corpo do intermediário, grande laboratório
de forças vibrantes. Meu poder de apreensão visual superara
os raios X, com características muito mais aperfeiçoadas.
As glândulas do rapaz transformaram-se em núcleos luminosos,
à guisa de perfeitas oficinas elétricas. Detive-me, porém,
na contemplação do cérebro, em particular. Os condutores
medulares formavam extenso pavio, sustentando a luz mental, como chama
generosa de uma vela de enormes proporções. Os centros metabólicos
infundiam-me surpresas. O cérebro mostrava fulgurações
nos desenhos caprichosos. Os lobos cerebrais lembravam correntes dinâmicas.
As células corticais e as fibras nervosas, com suas tênues
ramificações, constituíam elementos delicadíssimos
de condução das energias recônditas e imponderáveis.
Nesse concerto, sob a luz mental indefinível, a epífise
emitia raios azulados e intensos.
- Observação perfeita? - indagou o instrutor, interrompendo-me
o assombro. - Transmitir mensagens de uma esfera para outra, no serviço
de edificação humana - continuou -, demanda esforço,
boa vontade, cooperação e propósito consistente.
É natural que o treinamento e a colaboração espontânea
do médium facilitem o trabalho; entretanto, de qualquer modo, o
serviço não é automático... Requer muita compreensão,
oportunidade e consciência.
Estava admirado.
- Acredita que o intermediário - perguntou - possa improvisar o
estado receptivo? De nenhum modo. A sua preparação espiritual
deve ser incessante. Qualquer incidente pode perturbar-lhe o aparelhamento
sensível, como a pedrada que interrompe o trabalho da válvula
receptora. Além disso, a nossa cooperação magnética
é fundamental para a execução da tarefa. Examine
atenta¬mente. Estamos notando as singularidades do corpo perispiritual.
Pode reconhecer, agora, que todo centro glandular é uma potência
elétrica. No exercício mediúnico de qualquer modalidade,
a epífise desempenha o papel mais importante. Através de
suas forças equilibradas, a mente humana intensifica o poder de
emissão e recepção de raios peculiares à nossa
esfera. É nela, na epífise, que reside o sentido novo dos
homens; entretanto, na grande maioria deles, a potência divina dorme
embrionária.
Reconheci que, de fato, a glândula pineal do intermediário
expedia luminosidade cada vez mais intensa.
Deslocando, porém, a sua atenção do cérebro
para a máquina corpórea em geral, o orientador prosseguiu:
- A operação da mensagem não é nada simples,
embora os trabalhadores encarnados não tenham consciência
de seu mecanismo intrínseco, as¬sim como as crianças,
em se fartando no ambiente doméstico, não conhecem o custo
da vida ao sacrifício dos pais. Muito antes da reunião que
se efetua, o servidor já foi objeto de nossa atenção
especial, para que os pensamentos grosseiros não lhe pesem no campo
íntimo. Foi convenientemente ambientado e, ao sentar-se aqui, foi
assistido por vários operadores de nosso plano. Antes de tudo,
as células nervosas receberam novo coeficiente magnético,
para que não haja perdas lamentáveis do tigróide,
(corpúsculos de Nissel), necessário aos processos da inteligência.
O sistema nervoso simpático, mormente o campo autônomo do
coração, recebeu auxílios enérgicos e o sistema
nervoso central foi convenientemente atendido, para que não se
com¬prometa a saúde do trabalhador de boa vontade. O vago foi
defendido por nossa influenciação contra qualquer choque
das vísceras. As glândulas supra-renais receberam acréscimo
de energia, para que se verifique acelerada produção de
adrenalina, de que precisamos para atender ao dispêndio eventual
das reservas nervosas.
Nesse instante, vi que o médium parecia quase desencarnado. Suas
expressões grosseiras, de carne, haviam desaparecido ao meu olhar,
tamanha a intensidade da luz que o cercava, oriunda de seus centros perispirituais.
Após longo intervalo, Alexandre continuou:
- Sob nossa apreciação, não temos o arcabouço
de cal, revestido de carboidratos e proteínas, mas outra expressão
mais significativa do homem imortal, filho do Deus Eterno. Repare, nesta
anatomia nova, a glória de cada unidade minúscula do corpo.
Cada célula é um motor elétrico que necessita de
combustível para funcionar, viver e servir. Despreocupado de meu
assombro, o instrutor mudou de atitude e considerou:
- Interrompamos as observações. É necessário
agir.
Acenou para um dos seis comunicantes. O mensageiro aproximou-se contente.
- Calixto - falou Alexandre, em tom grave -, temos seis amigos para o
intercâmbio; todavia, as possibilidades são reduzidas. Escreverá
apenas você. Tome seu lugar. Recorde sua missão consoladora
e nada de particularismos pessoais. A oportunidade é limitadíssima
e devemos considerar o interesse de todos.
Depois de cumprimentar-nos ligeiramente, Calixto postou-se ao lado do
médium, que o recebeu com evidente sinal de alegria. Enlaçou-o
com o braço esquerdo e, alçando a mão até
ao cérebro do rapaz, tocava-lhe o centro da memória com
a ponta dos dedos, como a recolher o material de lembranças do
companheiro. Pouco a pouco, vi que a luz mental do comunicante se misturava
às irradiações do trabalhador encarnado. A zona motora
do médium adquiriu outra cor e outra luminosidade. Alexandre aproximou-se
da dupla em serviço e co¬locou a destra sobre o lobo frontal
do colaborador humano, como a controlar as fibras inibidoras, evitando,
quanto possível, as interferências do apare¬lho mediúnico.
Calixto mostrava enorme alegria no semblante feliz de servo que se regozija
com as bênçãos do trabalho, e, dando sinais de profunda
gratidão ao Senhor, começou a escrever, apossando-se do
braço do companheiro e iniciando o serviço com as belas
palavras:
- A paz de Jesus seja convosco!
MISSIONÁRIOS
DA LUZ
FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
DITADO PELO ESPÍRITO ANDRÉ LUIZ
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